07/05/2008 09:28

Caso Dorothy mantém licença para matar na Amazônia

Vitalmiro Bastos de Moura foi inocentado ontem, em Belém, de ter encomendado a morte da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005. A história ocupou o noticiário nacional e internacional durante um bom tempo, então não vou retomá-la. No primeiro julgamento, ele havia sido condenado, mas agora, devido a mudanças nos depoimentos de testemunhas, o juri o liberou por cinco votos a dois. Fogoió, o pistoleiro executor, desta vez, disse que fez tudo sozinho, da sua própria cabeça, ao contrário do que afirmou nos outros julgamentos. OK, faz de conta que eu acredito.

O promotor considerou um insulto post mortem contra Dorothy. Os movimentos sociais e pequenos agricultores presentes ficaram chocados. Deve haver recurso.

Enquanto isso, proprietários rurais ou grileiros que acreditam deterem o monopólio de violência em regiões em que o Estado é totalmente cooptado, subjulgado ou parceiro do poder econômico mantém sua licença para matar. Pois terão a certeza de que só peixe pequeno é condenado. Como é na maioria das vezes no Brasil.

Um lembrete: Vitalmiro Bastos de Moura continua na “lista suja” do trabalho escravo – cadastro oficial do governo federal que mostra quem cometeu esse crime em suas propriedades. Bancos públicos, algumas instituições financeiras privadas e empresas que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo evitam relacionamento com os listados. Bida foi flagrado com 20 escravos na fazenda Rio Verde, em Anapu (mesma cidade em que Dorothy foi morta), que desenvolve criação de bovinos. A fazenda foi desapropriada apenas no ano passado. Ou seja, tem gente que financiou as atividades ilícitas de Vitalmiro. Direta ou indiretamente. Mesmo após ele ter sido apontado como mandante.

Em tempo: falando em licença para matar, sabiam que apesar de milhares de fazendas já terem sido palco de libertações de escravos, não há um fazendeiro sequer que tenha sido julgado, condenado, preso e cumprido pena na cadeia por esse crime? Isso, apesar do Código Penal prever de dois a oito anos de reclusão.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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