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14/04/2008 16:13 Relator da ONU critica biocombustíveis e reafirma Fidel O relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, Jean Ziegler, afirmou que a produção em escala de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade devido aos seus impactos nos preços mundiais de alimentos. Em entrevista dada a uma rádio alemã, ele ainda pediu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) que altere as políticas sobre os subsídios agrícolas e dê preferência a programas que subsidiem a agricultura voltada à alimentação das populações locais. O poder executivo e empresários do setor sucrialcooleiro, que já estavam preparando uma resposta aos ataques internacionais aos impactos ambientais e sociais causados pela produção de etanol e biodiesel no país. Não deve ter gostado da declaração. O presidente cubano Fidel Castro, que vem alertando que o aumento da produção de biocombustíveis irá levar à escassez de alimentos (e por isso foi chamado de louco, inclusive pelo governo brasileiro), deve estar se sentindo vingado... A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) já havia divulgado um relatório apontando que o aumento na produção de biocombustíveis estava elevando os custos de importação de gêneros alimentícios. Os principais responsáveis por esse crescimento são grãos, como o milho, e óleos vegetais usados na produção de biocombustíveis. Na prática, o que o estudo sugere é que vai haver bastante milho e cana para quem puder pagar por eles. O que inclui os proprietários de automóveis, que os colocam no tanque, e exclui a população pobre, que tenta colocá-los na barriga. A produção de combustível a partir da soja ainda é pequeno no Brasil. Contudo, o seu crescimento está ocorrendo em um contexto de alta global nos preços dessa matéria-prima, utilizada para ração animal. O preço, formado lá fora, influencia a alta aqui dentro. Os efeitos disso já começaram a ser sentidos na mesa do brasileiro: nos últimos 12 meses, o preço do óleo de soja subiu 56%, de acordo com a Fipe. Isso sem contar que o aumento nos custos de produção de aves e suínos, dependentes de farelo de soja, está sendo repassado ao consumidor: a carne suína subiu 10,7% e o frango 6%. O milho é a principal matéria-prima para a fabricação de etanol nos Estados Unidos. Com o aumento na demanda desse grão para a produção de combustível, o preço da commodity tem aumentado, inclusive nas prateleiras dos supermercados do México - que, mais uma vez, paga o preço de ser o vizinho pobre. No ano passado, a sua população, que tem o milho como base alimentar, já sentiu o impacto do desejo norte-americano por mais etanol. O óleo de milho também disparou, elevando a procura, e portanto, o preço de outros produtos semelhantes como óleo de soja. Tudo está conectado. Vemos de perto os impactos brasileiros, mas eles são apenas uma peça no impacto global causado pelas culturas que estão na mira da indústria de combustíveis, que ocupam as melhores terras. A procura mundial por essas commodities não está sendo acompanhada pela oferta. Os estoque estão baixos e não são capazes de contribuir para regular preços. A inflação mundial no preço dos alimentos já está provocando fome em regiões pobres. Aposto com quem quiser que a taxa de desmatamento de 2008 terá uma alta significativa. E o número de denúncias de trabalho escravo na soja também. A devastação do meio ambiente e a degradação do trabalho tem estado na base da obtenção do lucro da expansão agropecuária. Vivemos tempos difíceis. O aumento do interesse mundial por biocombustíveis e a grande demanda por outras commodities, como carne bovina, faz com que o governo e parte do empresariado e até dos trabalhadores pense tão somente nos ganhos econômicos que isso vai trazer. O resultado disso é que criticar os impactos sociais, ambientais, fundiários e trabalhistas dos biocombustíveis hoje é ser antipatriótico... O problema é: crescer para quem ou para que se isso não vai significar melhoria na qualidade de vida da população mais pobre? Que, por outro lado, será quem vai tornar tudo isso possível, sacrificando-se em canaviais e plantações de soja para tornar o sonho da elite econômica e política realidade. enviada por Sakamoto Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?) |
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). ![]()
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