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06/03/2008 09:43 Palavras doem menos que o açoite de um feitor Pelas histórias que circularam pelos canaviais ontem, muita gente ficou satisfeita com a declaração do presidente Lula, que reclamou da visibilidade dada ao trabalho escravo no Brasil (ver post abaixo). Empresários do setor disseram que foi sob medida. Outros disseram que se fosse encomendado não teria saído tão bom. Ruralistas também fizeram coro, como a senadora Kátia Abreu (DEM-TO): Vamos ver se a partir de agora o Ministério do Trabalho será coerente com o pensamento do presidente, ou se é ele quem mudará de discurso conforme a platéia. Mas o pensamento do presidente não é simples de ser entendido. Se FHC era capaz de concordar com dois interlocutores antagônicos ao mesmo tempo, Lula sabe operar também em modo de ambivalência. Para sossegar os ânimos de fazendeiros e seus representantes políticos, ele esbraveja contra os exageros. Mas continua apoiando a libertação de trabalhadores, porque sabe que, sem isso, a imagem do país seria degradada lá fora, junto com os trabalhadores mantidos em cativeiro. É bizarro, mas é uma virtude no sentido de fazer política. Muita gente no Senado ainda não engoliu a vitória da fiscalização do trabalho escravo no caso Pagrisa aquele em que senadores saíram em defesa da usina flagrada com 1.064 escravos e não conseguiram reverter o quadro devido à pressão da sociedade civil. Buscam bater no combate ao trabalho escravo sempre que possível. Na minha opinião, expressa no post de ontem, Lula nem deveria ter feito os comentários que fez, um deserviço aos trabalhadores, mesmo que no campo simbólico. Há também empresários que aderiram ao combate à escravidão, gente graúda, que achou meio descabida a declaração. Mas, ao menos, enquanto seu governo continuar combatendo o problema, menos mal. Palavras doem menos do que o açoite de um feitor... enviada por Sakamoto Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?) |
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). ![]()
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