13/03/2008 10:26

Na grande festa pela liberdade, Lula foi o grande ausente

Brasília -Ontem um evento no Congresso Nacional reuniu quase mil pessoas para pedir a aprovação da “PEC do Trabalho Escravo”, uma proposta de emenda à Constituição que confisca a terra dos escravagistas e a destina para a reforma agrária. Em 2007, completam-se 13 anos desde a primeira vez em que a idéia foi apresentada no Congresso.





Estiveram presentes os presidentes da Câmara e do Senado, os ministros do Trabalho e Emprego, Desenvolvimento Agrário e Direitos Humanos, ministros de tribunais superiores, associações de juízes, procuradores e auditores, artistas e cantores, lideranças políticas e empresariais, representantes de governos estaduais, mais de 30 parlamentares da base do governo e da oposição.





Mas, principalmente, movimentos sociais, trabalhadores rurais e representantes de entidades vindos em caravanas do Pará, Tocantins, Piauí, Maranhão, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Distrito Federal. Membros do MST, Via Campesina, Fetraf e Contag deram cor e vida ao evento. Nos corredores do Congresso diziam que essa foi uma das maiores mobilizações dos últimos tempos e um das que reuniu mais grupos diferentes em torno de uma causa comum.





No final, os manifestantes foram para o lado de fora, deram as mãos e “abraçaram” o Congresso. Os congressistas prometeram fazer de tudo para aprovar a PEC. Resta saber se as promessas terão força ou disposição para serem cumpridas.





A grande ausência foi Lula.

O Movimento pela Aprovação da PEC do Trabalho Escravo e pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne diferentes setores da sociedade, há meses solicita que uma rápida audiência fosse concedida pelo presidente nesta quarta-feira para pedir uma manifestação pública de apoio. Feliz com o PIB de 5,4% em ano eleitoral e entretido nas comemorações de aniversário do Ministério do Desenvolvimento Social, o Planalto enviou desculpas mas disse que não ia dar em nenhum momento do dia. Apesar do evento no Congresso ter reunido quase o mesmo número de pessoas e sem claque.

No início do primeiro mandato, em 2003, Lula disse que a erradicação do trabalho escravo seria prioridade do seu governo. O combate melhorou muito comparado ao período FHC, mas a erradicação está longe de acontecer. Ainda mais com declarações do presidente que colocam em dúvida o importante trabalho realizado pelo próprio governo nessa área (como aquelas em que minimizou o problema ou chamou os usineiros de "heróis"). Ou o silêncio em atos como o de ontem.

Ao final do evento, muitos trabalhadores se perguntavam por que Lula não iria receber a carta que eles tinham aclamado, pedindo a aprovação da PEC. O presidente não tinha um tantinho de tempo para dar a eles? Na hora do almoço, talvez, uma vez que os trabalhadores que vieram de vários estados ficaram sem comer também até o fim do ato. Ou antes da mesa de negócios do The Economist Newspaper Group, no final da tarde, conforme aponta sua agenda oficial.

Quem sabe se o pedido fosse feito em nome de ruralistas, mineradores, banqueiros e industriais, ele tivesse sido atendido...

As fotos são de Iberê Thenório, da Repórter Brasil.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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