13/02/2008 22:38

Trata-se gente como bicho. E ganha-se muito com isso

Viena - Tá frio pra diabo lá fora.

E, ainda por cima, fiz questão de esquecer meu único casaco em São Paulo. Não estou sendo dramático: quando cheguei aqui hoje, vi o que me esperava pela janelinha do avião, com plantações que circundam a capital austríaca cobertas com uma fina camada branca de gelo. No campo, uma lebre fugia de um predador, talvez uma raposa, como naqueles documentários da National Geographic. Sakamoto, pensei, vais ter que lutar pela sobrevivência...

Gosto do frio. Mas frio demais corta o humor. Dá cãimbra na maçã do rosto. Não que o meu humor seja bom, longe disso, mas ele está em frangalhos por conta das horas não-dormidas no caminho daí para cá. Cheguei horas depois do programado devido a uma paralisação dos controladores de vôo. E antes que alguém xingue brasileiro de vagabundo, saiba que a greve em questão foi na França, onde fiz a conexão. Pelo o que conversei com um funcionário do aeroporto, o protesto deve continuar até sexta – exatamente quando eu volto (hehe).

Antes de continuar, um parágrafo panfletário, mas necessário: Apóio os controladores de vôo, brasileiros ou franceses. Apóio os cobradores e motoristas de ônibus. Apóio os bancários e metalúrgicos. Apóio os garis. Apóio os residentes médicos e todos os que fizeram suas greves e paralisações em 2007 e foram xingados por setores da sociedade. Apóio o santo direito de se conscientizarem, reconhecerem-se nos problemas, dizer não à exploração e entrar em greve até que a sociedade pressione e os patrões escutem. É claro que fiquei no aeroporto um bom tempo por conta desse apoio todo. Mas é a cota de sacrifício pessoal que temos que dar.

Dessa vez, a imigração não me barrou, ao contrário de outras viagens que fiz – quem acompanha este blog sabe a dificuldade que enfrento por ter cara de terrorista do Sudeste Asiático. Dessa vez, estava crente que Alá me concedera um milagre!

Mas na felicidade de ser tratado como gente na imigração – fato raríssimo – peguei o passaporte e - pernas para que te quero - nem olhei para trás. Depois, folheando o dito enquanto eu virava picolé no ponto do busão, percebi que esqueceram de carimbá-lo. Pergunto: se eu não entrei oficialmente, vão me deixar sair na boa? De repente a policial de fronteira tirou uma com a minha cara e vai estar lá para ver a minha desgraça. Sobre isso, não perca os próximos capítulos.

Aliás, falando em imigração... A irmã de uma amiga foi deportada da Espanha nesta semana. Tinha ido para Madri participar de um congresso. Chegando lá, aquele pessoal bem educado que cuida de fronteiras não foi com a cara dela e de outros brasileiros e os deixou em uma salinha por três dias. Não adiantou explicar que ela é mestranda em Física, que estava lá só para o evento, que não queria morar no exterior. Foi deportada.

O aumento da imigração de pessoas que procuram uma vida melhor em um país com maior oportunidade de emprego tem mostrado o que certas nações têm de pior. Os Estados Unidos erguem uma cerca entre eles e o México, uma vez que o fluxo de faxineiros, operários e serventes já está maior do que o desejado. Em muitos cantos da Europa os africanos, sul-americanos e asiáticos são carne de segunda.

Não precisamos ir muito longe. No Brasil, consideramos os vizinhos bolivianos, que tentam ganhar a vida em nossa terra, como trabalhadores descartáveis. E não é raro o trabalho escravo e degradante nas tecelagens da capital paulista que os empregam, ou melhor, os exploram.

Migrar e trabalhar. Quando eles se conjugam da pior forma temos o tráfico de seres humanos com fins econômicos ou para exploração sexual. É por isso que estou por aqui. Fui convidado a participar do “Vienna Forum to Fight Human Trafficking”, organizado pela iniciativa global para o combate ao tráfico de seres humanos das Nações Unidas, que está sendo realizado de hoje a sexta (16). Estão presentes especialistas, entidades internacionais, governos, sociedade civil, mídia e o setor empresarial para discutir como combater o problema. O Brasil trouxe sua delegação.

Um relatório da Organização Internacional do Trabalho - "Uma Aliança Global contra o Trabalho Forçado" - publicado em 2005, estima em cerca de 2,5 milhões de pessoas traficadas em todo o mundo, 43% para exploração sexual, 32% para exploração econômica e 25% para os dois ao mesmo tempo. O tráfico de trabalhadores rende cerca de 32 bilhões de dólares em lucro anualmente em todo o mundo.

Em 2007, de acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, 5.968 escravos foram libertados no Brasil. Desde 1995, quase 28 mil pessoas foram libertadas, em mais de mil fiscalizações realizadas. Os direitos trabalhistas pagos somaram mais de R$ 38 milhões e foram lavrados quase 20 mil autos de infração. Boa parte desses trabalhadores foram vítimas de promessas fraudulentas e aliciamento por “gatos”, contratadores de mão-de-obra, que traficam pessoas para explorá-las em fazendas e carvoarias.

De acordo também com a OIT, um estudo de 2002 sobre o tráfico de mulheres para exploração sexual no Brasil identificou 241 rotas nacionais e internacionais. A grande maioria das rotas internacionais tem como destino principal a Espanha, seguida da Holanda, Itália, Portugal, Paraguai, Suíça, Estados Unidos e Alemanha. As vítimas são, predominantemente, mulheres, negras e pardas, com idade entre 15 e 25 anos. Mulheres que vão buscar uma condição de vida melhor em outros países e que não possuem informações sobre seus direitos são as mais atingidas pelo problema.

Vou trazer alguns pontos que serão discutidos no evento. Darei especial atenção às iniciativas (ou falta delas) que envolvam ações que atinjam o bolso de quem lucra direta ou indiretamente com o tráfico.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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