09/02/2008 17:29

Soja, trabalho escravo e uma vista para a Casa Rosada

Buenos Aires - Estou na capital argentina para participar de uma reunião sobre soja, realizada por organizações não-governamentais, para discutir como reduzir os impactos no meio ambiente e no homem causados pela expansão e cultivo irresponsável desse grão. Que são muitos, diga-se de passagem.

Alguns pontos sobre a questão do trabalho escravo na soja, que é a parte que me cabe neste latifúndio: Tomando a “lista suja” (cadastro do governo federal que mostra os fazendeiros flagrados com mão-de-obra escrava) de janeiro de 2007 como referência, as propriedades que cultivam o grão aparecem em terceiro lugar no total das que mais usam esse tipo de exploração, atrás das que criam gado e das que produzem carvão vegetal.

A situação na soja é menos difícil de resolver do que em outras atividades agropecuárias que usam desse expediente bizarro. Os sojeiros escravagistas costumam dar a paulada no trabalhador no momento de preparação do terreno para a primeira produção. Depois, na maioria das vezes, é mecanizado (em outras atividades, como a pecuária ou a carvoaria, o trabalho escravo aparece também durante o processo de produção). Se a cadeia produtiva da soja agir firme nesse problema, a situação tende a melhorar. E rápido.

É claro que, com as cotações de soja crescendo na Chicago Board of Trade, a pressão para o aumento na área plantada de soja é grande. Mais interesse pela soja, mais trabalhadores convertendo de floresta e cerrado para a soja ou para a pecuária – que, muitas vezes, foi desalojada pela pressão econômica do grão e foi atrás de terras de outras terras. Vou analisar os dados do biênio 2007/2008 sobre trabalho escravo para verificar se houve aumento de casos nessa cultura por causa da alta do preço. Cobrem-me depois.

Considerando que um punhado de megaempresas controla quase todo o comércio de soja no Brasil (ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, Caramuru...), se elas agirem junto aos produtores e limarem o pessoal que brinca com a dignidade alheia, teremos bons resultados. Há avanços importantes feitos por empresas que devem ser reconhecidos. Mas algumas continuam titubeando em passar a faca nos galhos podres – para dizer isso de forma leve. Correm o risco de deixar a árvore inteira ficar doente.



A reunião acontece do lado da Casa Rosada, sede do governo argentino. Chamei por Cristina, mas ela não apareceu na janela.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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