28/02/2008 00:59

O preço do progresso é um programa de menina

Araguaína - Passando o município maranhense de Estreito (onde um consórcio de empresas quer construir uma hidrelétrica, para abastecer fábricas de alumínio de energia, alagando áreas de comunidades indígenas), cruzando-se a ponte sobre o rio Tocantins e entrando no estado homônimo, há um posto de combustível. Entre bombas de combustível e caminhões estacionados, meninas oferecem programas. Um dos meus companheiros de viagem diz que elas entram na boléia do caminhão por menos de R$ 30,00.

Prostituição infantil não é novidade nas estradas do Brasil. E nem é vinculada apenas a uma classe social: há denúncias e mais denúncias de políticos e empresários que alugam barcos e hotéis para consumir as crianças que compraram. Mas é ruim quando a gente se depara com isso. Ver meninas que deveriam estar estudando para uma prova de oitava série vender seus corpos para sobreviver dá um misto de raiva e sensação de impotência. Anos atrás, não muito longe dali, no Pará, me apontaram bordéis onde se podia encontrar por um preço barato “putas com idade de vaca velha”. Ou seja, crianças de 12 anos.

A Belém-Brasília, que foi construída sob a justificativa de integrar o país e ocupar o interior ajudou a enriquecer alguns poucos, trouxe outros milhares que perseguiam um sonho de vida melhor e viu milhões serem explorados em fazendas, carvoarias, bordéis, fábricas, garimpos, mineradoras do seu entorno. Em seu entorno, convivem a riqueza, que manda suas filhas estudarem no exterior, e a pobreza, que empurra as suas filhas para os postos nas madrugadas quentes.

Um dia um fazendeiro português com terras no Mato Grosso disse a Dom Pedro Casaldáliga, símbolo da luta pelos direitos do campo no Brasil, para justificar a exploração: “Dom Pedro, o senhor é europeu, o senhor sabe. As calçadas de Roma foram feitas por escravos. O progresso tem seu preço”.

Como lá, também aqui. E que preço salgado temos pagado pelo progresso de alguns! A fatura inclui a inocência de nossas crianças, perdida antes do tempo, no escuro do asfalto.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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