03/12/2007 12:27

Reeleições e pecados

Se a Venezuela não é uma democracia, como a população conseguiu rejeitar as mudanças constitucionais em referendo, decisão que o poder executivo afirmou que irá acatar?

Pessoalmente, acho a idéia de reeleição ad infinitum péssima e não concordo com certas ações de Chavéz. Mas a verdade é que havia outros pontos interessantes, como o fim do latifúndio, a subordinação da propriedade ao interesse social e o fortalecimento dos conselhos locais e regionais, aumentando a participação popular, que acabaram sendo rejeitados no pacote. Não se impõe essas coisas por decreto, mas a sinalização disso como norte é relevante.

Pontos que não passaram e muito por conta da vinculação da imagem das reformas às medidas que garantiriam concentração de poder pelo chefe do Estado. Até ontem, pesquisas davam vitória para o governo no plebiscito. Abertas as urnas, a realidade foi outra. Vivendo e aprendendo como nascem os pecados políticos.

Sou contra a possibilidade de uma segunda reeleição por aqui. Não por causa deste ou daquele ocupante, mas pelas conseqüências negativas de não haver renovação de quadros políticos com a manutenção de uma só pessoa ou grupo político no poder.

Dito isso, é risível o posicionamento de alguns colunistas que apontam a pesquisa Datafolha, que indicou 63% dos entrevistados sendo contra mais uma reeleição, ser a vontade popular e caso encerrado. Se assim fosse, me pergunto: não seria mais barato operar a democracia através de pesquisas de institutos privados ao invés de urnas? Para que eleições? As pessoas estariam eleitas com pesquisas nacionais, respeitando, é claro, a margem de erro...

Pesquisas podem pautar e subsidiar as discussões da arenas política, não substituí-las. Por exemplo, pesquisas já mostraram que a maioria da população é contra a legalização do aborto, por orientação religiosa, posicionamento pessoal ou má informação – mas não significa que isso seja motivo para enterrar a discussão.

Até porque, isso seria deixar de acreditar que a sociedade brasileira possa evoluir ao ponto de a questão ser tratada como um problema de saúde pública e um assunto de liberdade individual e não como pecado.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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