07/11/2007 12:10

Da capital do Império - Parte 2

Washington -O dia foi de maratona por aqui. Conversas com organizações sociais, reuniões com políticos, encontros com entidades internacionais, enfim, trabalho de articulação. No final, ganhei uma bolha no pé. A minha sorte é que eu havia comprado no Brasil um sapato social com air bag embutido (ok, a idéia é brega), mas que foi a salvação da lavoura.

Para quem passou o dia inteiro dentro do Congresso norte-americano, duas coisas saltam os olhos: primeiro é o intrincado labirinto que é aquilo ali. Quando você assiste a um filme de um grupo armado tentando tomar o prédio do Capitólio (fato que é sempre impedido na última hora por algum herói de plantão, com coração bom mas sérios problemas psicológicos decorrentes de alguma guerra bizarra em que o país se enfiou à toa) não imagina a quantidade de corredores, túneis, acessos, elevadores unindo os vários prédios do complexo que forma o senado e a casa dos representantes (a Câmara dos Deputados daqui). Conheço os mesmos buracos de minhoca no Congresso em Brasília e posso dizer que se perder aqui é mais fácil.

(Tá bom, admito, a gente se perdeu e chegou atrasado para uma reunião.)

Segundo, a grande quantidade de jovens que trabalham por aqui. Talvez os mais velhos estivessem acompanhando os congressistas em algum lugar, de férias ou na sauna, mas o que vi foi uma profusão de estagiários e povo na casa dos vinte e pouca coisa, provavelmente recém-formados. A maioria assessores e conselheiros que ajudam na formulação de leis e políticas públicas – ou seja, não é o cara que vai tirar o xerox, trazer os donuts e rasgar papel.

Nesta terça, demos um depoimento em uma audiência sobre tráfico de seres humanos no Congresso para falar do trabalho escravo no Brasil (eu fui convidado para um evento similar em Berlim, no ano passado, mas – é claro – aqui os cuidados acabam sendo bem maiores devido a possíveis interferências norte-americanas nos negócios alheios).

A audiência foi um informe do que é o trabalho escravo no Brasil e o que vem sendo feito para combatê-lo. É claro que as estrelas foram o carvão vegetal (matéria-prima para a fabricação de ferro-gusa e, portanto, do aço) e a cana-de-açúcar (etanol, açúcar, enertgia elétrica...) Não houve ataques, foi um encontro bastante tranqüilo.

Entre 25 de novembro de 1º de dezembro, uma comissão de 14 congressistas, democratas e republicanos, irá visitar o Brasil. No roteiro, Brasília, Rio de Janeiro, Salvador, Manaus. Há gente que deve vir para dicutir política, mas tenho certeza que uma parte se interessou para pegar carona para o verão brasileiro... Na pauta, discussões sobre cooperação econômica, comércio, meio ambiente e, é claro, biocombustíveis e trabalho escravo. O coordenador é o democrata Eliot Engel, presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental da Comissão de Relações Internacionais da Câmara. Ele, que havia denunciado no ano passado o trabalho escravo no ferro-gusa exportado pelo Brasil (que para nós, não é novidade), estava presente na audiência. Elogiou os esforços brasileiros ("lista suja", Instituto Carvão Cidadão, sociedade civil...), reclamou do corte no repasse a projetos assistenciais dos EUA ao Brasil e disse que mais precisa ser feito.

Em muito a discussão causada pelo aço aqui se deve a uma reportagem da revista Bloomberg, divulgada no ano passado, sobre o trabalho escravo na cadeia produtiva do ferro-gusa brasileiro, que se estende até os EUA. Agora, na edição de novembro, a revista soltou outra matéria que deve causar arrepios nos produtores brasileiros de cana, sobre os problemas ambientais e trabalhistas do setor. A matéria é bem feita e retrata bem o quadro de degradação a que está submetido o bóia-fria.

No final do dia, me deu uma preguiiiiça (sem parafrasear Macunaíma). Não com o povo daqui, necessariamente, mas com alguns produtores rurais brasileiros. OK, mais indignação do que o costumeiro. Nosso trabalho é tentar ajudar os trabalhadores a ter uma vida mais digna. Só que as pessoas que atuam no combate ao trabalho escravo acabam tendo que agir para evitar que o tema seja utilizado pelo lado sombrio da força. Ou seja, acabamos atuando para proteger a economia brasileira de olhos mal-intencionados. Explico.

Que temos trabalho escravo isso é público e notório. O fato foi reconhecido pelo presidente Fernando Henrique, em 1995, e reafirmado por Lula em 2003, que criaram ou aprimoraram sistemas para combater essa desgraça. Mas há associações de produtores rurais brasileiros que quando visitam outros países afinam o discurso para dizer que trabalho escravo é uma invenção da sociedade civil e de setores esquerdistas do governo. E que tudo vai às mil maravilhas nos seus setores.

Será que eles acham realmente que compradores de outros países não têm acesso à informação? Além dos documentos do governo brasileiro mostrando que o problema existe e está sendo combatido, as libertações de trabalhadores de escravos são documentadas por jornais, TVs, revistas, agências de notícias do Brasil e do mundo inteiro há anos.

É muita cara de pau dizer que não há nada! Será que eles acham realmente que alguém acredita nisso? Aí, o problema sobra na mão da sociedade civil. Empresas e organizações (brasileiras e estrangeiras) nos dizem que se os produtores rurais mentem tão descaradamente assim é porque o problema deve estar em todo setor. Aí, lá vamos nós dizer que não é bem assim, que trabalho escravo é um problema pequeno comparado com a economia brasileira, que ele é localizado e está sendo combatido, que erguer barreiras comerciais contra o nosso país é estupidez porque ajudaria a aumentar a pobreza em várias áreas, que a solução passa pelo apoio internacional à erradicação da escravidão por aqui, que o Brasil não pode ser penalizado por sua transparência. Nós mostramos, a China e a Índia normalmente não.

Repetimos exaustivamente que há instrumentos de restrição comercial produzidos pelo governo brasileiro e pela sociedade civil que garantem que o comércio fique livre de trabalho escravo, como a “lista suja” (cadastro do Ministério do Trabalho e Emprego que relaciona os empregadores que usaram esse tipo de exploração). Além do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne mais de 100 empresas, como Petrobras, Coteminas, Walmart que cortaram fazendas com trabalho escravo de seus fornecedores. E que, por isso, qualquer tentativa dos EUA ou da Europa de fazer uma lista de produtos proibidos ou tentar fazer eles mesmos fiscalizações, além de criar um problema internacional, será inútil. Nunca terão o alcance que o governo e a sociedade têm para atacar esse problema e vão acabar fazendo algo parcial e, portanto, danoso. Ou que poderia ser usado para o protecionismo barato sob a bandeira da justificativa social.

Percebem uma coisa? Deveríamos gastar o nosso tempo aqui dialogando com eles em outro nível, como formas de apoio multilateral, intercâmbio técnico, apoio a projetos, engajamento das empresas daqui para serem responsáveis no Brasil (tá cheio de multinacional que na própria casa tem um comportamento e na do vizinho fazem e não dão descarga). Mas temos que dividir o tempo e ficar resolvendo problemas criados pelos produtores rurais que querem vender uma imagem de conto de fadas.

Fiquei sabendo de um evento na Alemanha para “desmistificar” as mentiras contadas sobre a carne brasileira. Fizeram até um churrascão grátis ao ar livre. Claro! Isso é genial! A prova de não há escravos na carne (que representa mais da metade dos casos de trabalho escravo no Brasil) é que ela é suculenta. Cada uma...

Pô, custa chegar aqui fora e falar: “há trabalho escravo, infantil e superexploração, como também no seu país (há trabalho escravo nos EUA, na Europa, e em dezenas de países do centro ou da periferia). Mas no Brasil, esses problemas vêm sendo combatidos com efetividades e transparência superior aos países desenvolvidos”. O nível dos assessores do pessoal da agricultura no Brasil vem se mostrando bem baixo.

Mas uma coisa que não fazemos é defender fazendeiro sacana. Para esses, sugerimos, dentro e fora no Brasil, a bancarrota. Ou melhor dizendo, o confisco das terras em que trabalho escravo seja encontrado – projeto que está tramitando há 12 anos no Congresso brasileiro sem sinais de que será aprovado.

Desculpem o texto árido e nervoso. Ia comentar algumas outras coisas de leis e políticas, mas deixo para outro texto.

Como o frio deu uma baixada, vou lá fora dar comida aos esquilos para desestressar.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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