![]() |
|||
|
06/11/2007 02:36 Da capital do Império Parte 1 Washington - OK, o título não é inteligente ou criativo. Muito menos inédito acho que já vi alguma matéria ou artigo com essa alcunha. Mas mesmo sendo um lugar comum, tem seu charme, por isso resolvi utilizá-lo, pois parece que a viagem fica mais importante... Não esperem algo mais elaborado como foi no Paquistão. Estou aqui só de passagem, por assim dizer - quatro dias de estadia (bate e volta de luxo). Eu e Xavier Plassat, da Comissão Pastoral da Terra e velho companheiro de viagens, viemos dar um depoimento sobre o trabalho escravo no Brasil e como o país está combatendo essa praga. Falo disso amanhã quando o evento e as reuniões correlatas acontecerem. Aliás, falando em Paquistão, que loucura aquilo lá no Sul da Ásia. No quesito segurança, eu tive sorte. Saí antes do atentado contra a comitiva da ex-primeira ministra Benazir Bhutto (se eu estivesse ainda por lá, ia querer ver de perto o retorno dela do exílio e - cabum! - seria alvo de bomba na certa) e antes do ditador Musharraf decretar estado de emergência e sacudir a já remexida república islâmica. Ou seja, no quesito jornalismo, eu me lasquei legal. Seriam grandes histórias a serem contadas. E o troféu de timing errado vai para... E a cara de terrorista não muda, vou ter que fazer uma plástica se quiser viajar bem. Em Londres, eu havia sido barrado na imigração. Dessa vez, fui suspeito no meu próprio país! Após algumas perguntas e respostas na fila do check in da United Airlines uma moça disse para eu acompanhá-la que minha mala seria revistada. É aleatório, explicou. A cada 20 pessoas uma é levada para a salinha. (O divertido é que o japonês que estava logo atrás na fila também foi "sorteado" para ir à sala. Um senhor branco e bem vestido não. Eu adoro essa aleatoriedade seletiva! Até porque, como sabemos, homens brancos não fazem bombas.) Washington é uma capital planejada, mas é mais convidativa para o uso do espaço público que Brasília. Aqui o eixo principal, que vai dar no Congresso, é cercado de museus e galerias de arte com entrada gratuita (como só tínhamos uma tarde livre e nada na carteira foi ótimo porque pudemos dar uma espiada em vários). O povo se apropria desse espaço, traz os filhos, lê jornais e namoram nos banquinhos, enfim. Bem diferente da esplanada dos ministérios que, com seu gramadão sem árvores e prédios administrativos, é um grande monumento a céu aberto. A função de cada cidade ganha um contorno mais claro nessas horas. E viva Lúcio Costa! Em compensação, a maior parte dos edifícios é austera, dura, uma arquitetura burocrática. A altura é baixa, pois as construções devem ser menores que a altura do Capitólio, o prédio do Congresso. Passei na frente da Casa Branca só para poder transmitir uns pensamentos negativos que estavam em gestação há tempos. Esperava encontrar alguém protestando contra a invasão do Iraque ou a guerra do Afeganistão. Ou mesmo um paquistanês revoltado com os EUA por ajudarem a tornar a vida política do seu país um absurdo com sua guerra ao terror (os jornais daqui só falam nas burradas que vêm sendo feitas pelo aliado Musharraf). Tem tanto motivo que a gente até esquece. Ao invés disso, chegando lá, me deu um mal-estar de ver um grupo de estudantes europeus freneticamente esgueirando-se pelas grades para tentar enxergar melhor a sede do poder executivo. De repente, ver o supremo mandatário sair e dar um tchauzinho. Fiquei constrangido por eles. Se esses são os netos de maio de 1968, os pais fizeram um trabalho ruim. O poder é sedutor, mas discernimento ainda é importante ainda mais nesses tempos obscuros. Se ainda fosse o cidadão médio americano, vá lá (aliás, uma cutucada: uma pesquisa apontou que um número representantivo dos jovens daqui acha que os EUA lutaram ao lado da Alemanha na Segunda Guerra. Eixo Hitler-Roosevelt - hehe). Bem, amanhã eu escrevo mais, já estou de olhos pregados. Mas vou comer uma rosquinha e tomar uma coca antes de dormir. enviada por Sakamoto Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?) |
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). ![]()
Pesquisa personalizada
![]() ![]() Repórter Brasil |
||
![]() |
|||