![]() |
|||
|
11/06/2007 11:00 O que você consome é realmente necessário? Dia desses, voltando de uma viagem de trabalho, olhei uma máquina de café expresso na loja do aeroporto. Como já havia uma demanda por uma coisa dessas na redação da Repórter Brasil (jornalista é movido a café), pensei em levá-la. A oferta estava boa e não ia pesar no meu bolso. Mas aí bateu a dúvida: será que uma máquina de expresso era realmente necessária? Afinal de contas, a nossa cafeteira velha já dava conta do recado de manter a equipe acesa. Acabei não levando. Não pelo gasto em si (não sou sovina), mas pelo impacto que aquela ação iria causar. Não há recursos naturais suficientes para a universalização do estilo de vida norte-americano, adotado de forma cega por nós do Ocidente e pelas classes abastadas das demais metrópoles mundiais. Se consumindo o que a gente já consome, o planeta está desse jeito, imaginem se todos os habitantes da Terra tivessem um padrão de consumo próximo disso? O colapso ambiental e social viria muito antes do que imaginamos. O que pode ter em uma cafeteira? Alumínio? A construção da hidrelétrica de Estreito, entre o Maranhão e o Tocantins, vai expulsar centenas de famílias indígenas e de camponeses para garantir energia elétrica a indústrias de alumínio, além de contribuir com o efeito estufa através da liberação de gases pela decomposição de material orgânico que será coberto pela água. Plástico? A exploração de petróleo matéria-prima para diversos tipos de plástico é responsável por guerras ao redor do mundo. Ou ainda há alguém que acredita que a invasão norte-americana no Iraque foi para livrar o Oriente Médio de um ditador cruel? Fios de cobre? Há décadas a extração desse minério ocorre através da superexploração de trabalhadores em minas na América do Sul. Papel da caixa? A plantação de eucaliptos pela Aracruz, por exemplo, vêm desalojando populações indígenas na Bahia. Isso sem contar que o seu cultivo inviabiliza a terra para outras culturas alimentares que sejam plantadas posteriormente. Não estou dizendo que uma cafeteira é responsável pelas desgraças do mundo, apenas alertando que o ato da compra é também um ato político, com conseqüências maiores do que a gente pode imaginar. E se é um ato político, ele tem o mesmo poder de um voto. Ao comprar algo, você deposita o seu aval para a maneira que determinado produto foi feito ou para um padrão de consumo como um todo. Negar uma compra, pelo impacto que determinada mercadoria pode causar, contribui com uma mudança no sistema. Não estou defendendo que nos organizemos em comunidades isoladas, cultivemos juta para fiar nossas roupas, boldo e pariparoba para garantir uma reserva médica e restrinjamos nosso lazer a cânticos em torno de fogueiras. Avançamos tecnologicamente e nos beneficiamos disso por mais que esse "progresso" tenha sido doloroso. E é exatamente por isso, pelo acúmulo de conhecimento sobre o meio em que vivemos, que é possível e lógico reformular nosso padrão de vida. Consumir apenas o que é necessário, repensando o significado de "necessário". É triste uma civilização que deposita tanta importância em badulaques para atingir a felicidade. O debate sobre o meio ambiente emerge no século 21 como uma discussão sobre a qualidade de vida, não tratando apenas de rios poluídos e derramamento de petróleo, mas também da atual idéia de progresso alta tecnologia aliada a uma postura consumista , que não está conseguindo dar respostas satisfatórias à sociedade. Faz parte dessa discussão a busca por modelos alternativos de desenvolvimento humano. Que só serão efetivos caso diminuam nosso apetite por recursos naturais. E não mantenham a população mais pobre excluída dos benefícios trazidos por sua exploração atual e futura. Diferentemente do que vem acontecendo até agora, em que uns pagam pelo cafezinho dos outros. Recentemente, dei uma entrevista para a Agência Brasil para o especial Consumo Consciente. Vale a pena dar uma olhada (no especial, não na entrevista). enviada por Sakamoto Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?) |
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). ![]()
Pesquisa personalizada
![]() ![]() Repórter Brasil |
||
![]() |
|||