15/06/2007 17:13

Com tanta terra vazia, violência é a miséria nos campos

Distribuir terra já não basta para garantir qualidade de vida aos trabalhadores rurais. Faz-se necessário uma nova reforma agrária, que mude o modelo econômico vigente - incapaz de garantir desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental e social. E o caminho da mudança passa, necessariamente, por um enfrentamento entre os atuais detentores do poder econômico e os trabalhadores.

As idéias acima foram algumas das principais defendidas durante o 5º Congresso Nacional do MST, que se encerra hoje em Brasília. Recomendo a leitura das reportagens de Maurício Hashizume, na Repórter Brasil, sobre o encontro.

Muitas pessoas detestam o movimento. Abominam a idéia de que a propriedade privada e o desenvolvimento econômico não podem ser valores absolutos, que acima deles está a dignidades das pessoas. Reclamam da violência das ocupação de terras - "um estupro à legalidade", como dizem os seus críticos - através de uma legião de pés-descalços empunhando armas de destruição em massa, como enxadas, foices e facões.

Para reflexão, deixo o texto "Provocações", de Luís Fernando Veríssimo. E desejo boa sorte a quem dormirá, mais esta noite, sob uma lona preta em algum lugar do interior do Brasil.

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

- Violência, não!

enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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