21/06/2007 11:41

Cana - quem vale mais: dólares ou trabalhadores?

Ao anunciar, ontem, os dados de geração de emprego com carteira assinada no país, o ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi (PDT) afirmou que seriam implantadas medidas para combater o trabalho escravo no setor sucroalcooleiro. Ele enfatizou que o objetivo é se antecipar às críticas internacionais devido ao aumento da participação brasileira no mercado de etanol e açúcar.

"A questão do etanol é prioritária para o país. Venho recentemente de uma reunião na OIT [Organização Internacional do Trabalho], e a gente percebe com clareza um movimento para prejudicar o Brasil no cenário internacional, já que somos os pioneiros nessa tecnologia”, afirmou.

Deve-se reconhecer que Lupi tem colocado em seus discursos o combate à escravidão contemporânea como uma das principais pautas de sua administração, afirmando que esforços estão sendo feitos na implantação de medidas preventivas, além de garantir apoio às operações de fiscalização.

Contudo, é preocupante que um ministro do Trabalho analise publicamente a questão do etanol sob a ótica dos problemas gerados ao empresariado e não pelas conseqüências ao trabalhador.

Nos últimos três anos, 19 trabalhadores rurais morreram no corte da cana apenas no (“desenvolvido”) interior paulista. Centenas de pessoas têm sido encontradas em situação degradante de trabalho em canaviais de Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo. A cana não é a principal usuária de escravos – título ostentado pela pecuária bovina. Mas há incidência do crime nesse setor, tanto que a maior libertação realizada até hoje aconteceu em uma fazenda de cana – a Destilaria Gameleira, em Confresa (MT), em junho de 2005, quando 1003 pessoas ganharam a liberdade.

É claro que as coisas não são simples. Se houver embargo comercial, os trabalhadores rurais também serão prejudicados. Mas o Ministério do Trabalho há anos têm atuado para regularizar a situação nessas fazendas, ou seja, fazendo a parte dele. É hora dos empregadores, que têm enchido os bolsos com a cana, e seus ministérios fazerem também a lição de casa.

Lupi deveria externar sua preocupação com a situação dos trabalhadores rurais envolvidos na colheita da cana, que se matam de trabalhar, cortando até 17 toneladas por dia e não com a queda de ganhos causados por possíveis barreiras comerciais. Esse discurso caberia aos ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento e Comércio Exterior ou ainda do das Relações Exteriores. O MTE é para defender o trabalhador e não o capital.

Isso me lembra um caso que aconteceu há um ano, quando fui a Alemanha para dar palestras sobre a situação do trabalho escravo no Brasil e como a Europa poderia contribuir com a sua erradicação. Quando voltei, recebi críticas de dirigentes de uma grande central sindical brasileira, que hoje faz parte do governo (OK, não ajuda muito, pois as duas maiores se aninharam com Lula), de estar "manchando" a imagem das empresas brasileiras no exterior.

Fiquei surpreso. Não por culparem o mensageiro - como jornalista já estou acostumado. Mas em nenhum momento eles se mostraram preocupados em como ajudar a resolver o problema. Ficaram indignados com o possível impacto no comércio - como se o fato de termos trabalho escravo fosse alguma novidade para o mundo.

Se esse é o novo sindicalismo, mais de olho mais na balança comercial do que na situação dos trabalhadores, teremos que redefinir rapidamente o significado da palavra peleguismo.
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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