17/06/2007 13:52

A fantástica idéia de Serra - parte II

O MST reclamou do anteprojeto de Serra, como era de se esperar. O interessante é que a União Democrática Ruralista (UDR – sim, ela ainda existe) também torceu o nariz para a proposta.

O ruralistas vão sempre reclamar, não esperaria menos de uma categoria que ganha dezenas de bilhões de reais do governo federal e continua afirmando que são injustiçados. Mas o que (ainda) me espanta é que a mídia, ao tratar do tema com sua pretensa imparcialidade, acaba legitimando uma proposta sem pé nem cabeça como essa.

Por exemplo, ao dizer que a proposta desagrada ruralistas e sem-terras, mas sem analisar o seu conteúdo e possíveis desdobramentos, apenas ouvindo fontes, os veículos de comunicação que trataram do tema fazem parecer que o anteprojeto é ponderado, pois desagradaria dois grupos. O que não é verdade. Qualquer pessoa pode reclamar de uma ação mesmo que ela o beneficie, seja para tentar obter mais benefícios ou para manter aquele que acaba de conseguir.

Aliás, essa prática é muito utilizada por donos de mídia ao afirmarem que a prova de que seu jornal é imparcial é o fato dele ser criticado tanto pela direita quanto pela esquerda. Mas quando você analisa o teor dessas críticas, constata que as reclamações da direita são mais cosméticas e, na maioria das vezes, estão lá para marcar terreno, enquanto as da esquerda são mais graves e dizem respeito a informações erradas.

Não acho que isso seja só manipulação. Há uma carga grande de preguiça e ignorância por parte de colegas. No final, quanto menos questionamos a realidade, mais contribuímos para manter o status quo, ou seja, ajudamos a garantir a perpetuação da concentração de renda e da injustiça social.

Bem, mas de repente é isso mesmo que a minha categoria quer...
enviada por Sakamoto






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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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