11/05/2008 08:38

Para alguns, nem sempre interessa o outro lado da notícia

A Ponte Octavio Frias de Oliveira, já carinhosamente apelidada de "Estilingão", devido ao seu formato, foi inaugurada ontem em São Paulo. A Globo deu longa reportagem no Jornal Nacional, mostrando a trajetória do publisher da Folha da S. Paulo, que batiza a obra, morto no ano passado. Discursos de familiares, de políticos, exposição de carros antigos. Mas nada de falar do protesto que reuniu algumas dezenas de pessoas, que antecipei dois posts atrás.

Dava para ouvir os protestos ao fundo na matéria da Globo. Por isso mesmo era de se esperar que o jornalismo da emissora desse um espaço, por menor que fosse, ao "outro lado", ouvisse o que gritavam os manifestantes. Mas nenhuma palavra foi gasta para falar disso, fazendo com que a reportagem parecesse com um release, um comunicado de assessoria de imprensa. Nesse caso, de José Serra e Gilberto Kassab, governos estadual e municipal, presentes à inauguração. Quem quis saber mais sobre o protesto, teve que buscar outras saídas, como a internet.

Em tempo: Moradores da região disseram que, com a inauguração, o trânsito da região voltou a ser o mesmo de antes da obra.
enviada por Sakamoto


09/05/2008 20:50

Um admirável ornitorrinco da exploração do trabalho

O governo de Pequim está encorajando empresas chinesas a comprarem terras em países da América do Sul e da África para garantir segurança alimentar para o seu povo, tendo em vista a possibilidade real de ser agravada a escassez de alimentos em um futuro não muito distante. Na verdade, querem garantir que o preço da comida não fique proibitivo.

Há, inclusive, a possibilidade deles enviarem trabalhadores chineses para atuar nesses empreedimentos, caso a idéia prospere.

Perguntar não ofende: será que eles vão exportar também as formas de tratamento desumano dispendido contra seus trabalhadores rurais? No ano passado, denúncias internacionais de trabalho escravo levaram a ações puramente piroténicas de Pequim para dar uma satisfação pública, mas que não tiveram nenhum resultado mais duradouro.

O Brasil rural já tem seus métodos de exploração grotesca do trabalhador, trazidos pelos portugueses, maturados na colônia, império e república, e exponenciados pelo capital ganancioso. Agora poderemos fundir com as técnicas chinesas de roubo da força de trabalho no campo. Seria ótimo! Teríamos um admirável ornitorrinco novo.


enviada por Sakamoto


08/05/2008 12:16

Ponte Octavio Frias representa o individualismo de São Paulo

Neste sábado (10), durante a inauguração da ponte Octavio Frias de Oliveira, sobre o rio Pinheiros, entidades sociais farão um ato paralelo, um protesto cultural contra a política urbana de exclusão social que essa obra simboliza. Segue o convite que está sendo distribuído.

São Paulo pra debaixo da ponte

Neste sábado, 10 de maio, a cultura do individualismo e da segregação será homenageada em São Paulo. O ato pela inauguração da ponte jornalista Octavio Frias de Oliveira representa o símbolo máximo da São Paulo higienista, especuladora, corrupta e voltada ao transporte individual.

O "Estilingão", que mais do que uma ponte é um monumento, custou aproximadamente R$275 milhões. Esse dinheiro seria suficiente para construir 1000 quilômetros de ciclovias em São Paulo ou para fazer a ligação por trilhos entre o aeroporto de Congonhas e o metrô. Também poderia ser usado para manter faixas de pedestre pintadas em todas as esquinas da capital durante uma década, construir 100 quilômetros de corredores de ônibus, além de muitas praças e inúmeras habitações populares. Mas nada disso será feito.

Enquanto todos esses projetos para uma cidade mais humana são jogados pra debaixo da ponte, a inauguração do estilingão dá mais um passo mais rumo à consolidação de um mega-projeto urbanístico-financeiro, elaborado em parceria por especuladores imobiliários e poder público, com o objetivo de transferir o coração do capitalismo brasileiro para as margens do rio Pinheiros (e ganhar muito dinheiro com isso).

A conta, paga por todos os que não estão lucrando com isso, inclui a expulsão dos moradores das várias favelas da região (Jd. Edith, Real Parque, Jd. Panorama, Jd. Colombo, Paraisópolis), do povo que realmente construiu todos esses mega-empreendimentos, mas que jamais foram nem serão convidados para nenhuma das inaugurações.

No dia 10 de maio, enquanto as elites endinheiradas comemoram a criação de mais um "monumento" para a São Paulo, nós, que não fomos convidados para a festa, vamos ocupar o espaço da maneira que nossa cidade deve ser, com poesia na praça, bicicleta na rua e gente no centro.

O convite está sendo distribuído pela Favela Atitude, Coletivo Ecologia Urbana, Bicicletada, Coletivo Epidemia, Sarau do Binho, Expedición Donde Miras.
enviada por Sakamoto


07/05/2008 09:28

Caso Dorothy mantém licença para matar na Amazônia

Vitalmiro Bastos de Moura foi inocentado ontem, em Belém, de ter encomendado a morte da missionária Dorothy Stang, em fevereiro de 2005. A história ocupou o noticiário nacional e internacional durante um bom tempo, então não vou retomá-la. No primeiro julgamento, ele havia sido condenado, mas agora, devido a mudanças nos depoimentos de testemunhas, o juri o liberou por cinco votos a dois. Fogoió, o pistoleiro executor, desta vez, disse que fez tudo sozinho, da sua própria cabeça, ao contrário do que afirmou nos outros julgamentos. OK, faz de conta que eu acredito.

O promotor considerou um insulto post mortem contra Dorothy. Os movimentos sociais e pequenos agricultores presentes ficaram chocados. Deve haver recurso.

Enquanto isso, proprietários rurais ou grileiros que acreditam deterem o monopólio de violência em regiões em que o Estado é totalmente cooptado, subjulgado ou parceiro do poder econômico mantém sua licença para matar. Pois terão a certeza de que só peixe pequeno é condenado. Como é na maioria das vezes no Brasil.

Um lembrete: Vitalmiro Bastos de Moura continua na “lista suja” do trabalho escravo – cadastro oficial do governo federal que mostra quem cometeu esse crime em suas propriedades. Bancos públicos, algumas instituições financeiras privadas e empresas que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo evitam relacionamento com os listados. Bida foi flagrado com 20 escravos na fazenda Rio Verde, em Anapu (mesma cidade em que Dorothy foi morta), que desenvolve criação de bovinos. A fazenda foi desapropriada apenas no ano passado. Ou seja, tem gente que financiou as atividades ilícitas de Vitalmiro. Direta ou indiretamente. Mesmo após ele ter sido apontado como mandante.

Em tempo: falando em licença para matar, sabiam que apesar de milhares de fazendas já terem sido palco de libertações de escravos, não há um fazendeiro sequer que tenha sido julgado, condenado, preso e cumprido pena na cadeia por esse crime? Isso, apesar do Código Penal prever de dois a oito anos de reclusão.
enviada por Sakamoto


06/05/2008 17:51

A bizarra defesa dos arrozeiros na Raposa Serra do Sol

A desocupação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, instaurou um debate acalorado na sociedade. De um lado, os arrozeiros que invadiram a área indígena, anos atrás, quando já sabiam que aquela terra pertencia a terceiros. Do outro lado, povos indígenas que não querem nada além de seus direitos. Apoiando o primeiro grupo, temos políticos ligados ao agronegócio – que vêm nas reservas indígenas um entrave ao progresso [do lucro de proprietários rurais], alguns ministros de tribunais superiores (me pergunto quantas chances Marco Aurélio Mello perdeu de ficar quieto e não falar besteira), empresários gananciosos e jornalistas reacionários.

O debate está assumindo níveis de ignorância explícita. Já ouvi jornalistas afirmarem que se trata de uma “interdição” de uma área do tamanho de Sergipe para uma populaçao indígena de alguns milhares, comparando a situação com a de trabalhadores rurais sem-terra que esperam a reforma agrária. Primeiro, é um grande erro comparar culturas tão diferentes e tão díspares. Índios caçam e para isso precisam de uma grande área, enquanto nós podemos escolher nossos produtos industrializados e com conservantes nas prateleiras de qualquer supermercado. Isso sem falar das mudanças de roçado e nas suas áreas místicas. E não são as reservas indígenas o entrave da reforma agrária no Brasil. Sabemos que o problema está mais para a política do que a para a antropologia.

Não vemos a mesma indignação de jornalistas, juízes e políticos contra agricultores que possuem centenas de milhares de hectares de terra sob o nome de suas famílias. Há latifúndios do tamanho de países, com uma taxa ridicularmente baixa de produtividade e não cumprindo sua função social – prevista na Constituição.

Vale lembrar que os indígenas ajudaram o Brasil a ser o soberano daquelas terras, quando no início do século passado eles se disseram brasileiros durante a disputa com a Inglaterra/Guiana. Se reserva em área de fronteira fosse um risco para o país, o território Ianomami, de área bem maior, criado há tempos, já teria virado um país.

Ainda há os que acreditam que é necessário levar o índio brasileiro da idade das trevas da perdição para a luz de nossa sabedoria ocidental, chegando a ponto de sugerir a eles o "american way of life" como linha de comportamento. É uma questão de tempo até os valores ocidentais chegarem aos índios isolados – sim, eles ainda existem.

Podemos ficar sentados e esperar acontecer o que houve em outros lugares do Brasil, onde índios pedem esmolas na porta de bancos, em Rio Branco, ou se vestem especialmente para dançar para crianças da classe média alta de São Paulo. Ou podemos procurar soluções para que essa convivência seja a menos traumática possível, a fim de que sejam preservados sua cultura e, principalmente, sua dignidade.

Para isso é necessário que lhes seja garantido não só o direito de usar a sua própria terra, mas também apoio para encarar esse mundo novo que avança assustadoramente na velocidade de uma onça.
Na Região Norte, os imbecis cunharam a idéia de que índio é sinônimo de atraso no desenvolvimento. Há os que possuem o discurso ensaiado, como as empresas de extração mineral da Amazônia - que babam em cima de reservas indígenas ricas em ouro, diamantes e até urânio.

O conceito de desenvolvimento sustentável ainda é incipiente, para não falar quase inexistente em várias partes do Brasil. E é mais fácil ignorar o que se aprendeu com os erros do passado do que pegar um atalho para obter dinheiro fácil. Não é destruindo o ecossistema que o desemprego será solucionado. E depois, quando a madeira acabar também nas reservas, o que irá se fazer? Atravessar a fronteira e atacar a Bolívia? Bem, não se está muito longe disso, uma vez que guardas florestais do Parque Noel Kempf Mercado, uma reserva boliviana bem cuidada e estruturada, acusam brasileiros de roubar madeira.

O futuro do desenvolvimento sustentável passa por uma reformulação nos projetos para a região. Talvez seja a hora de repensar a pecuária e a monocultura.

Por conseguinte, disso depende o futuro de todos grupos indígenas não só de Roraima, mas de todo o país. Abandonados, desprezados, encurralados na terra que um dia já foi sua, como mostra matéria sobre o tema publicada recentemente na Repórter Brasil. Trocados por boi com o apoio e a conivência da sociedade civil. Ou servindo de atração circense nas grandes capitais.

Índios vem sendo mortos freqüentemente. Assim como árvores são transformadas em tábuas. E nunca ninguém precisará saber ao certo quem faz isso porque, na verdade, não estamos mesmo interessados. Que a vida siga como ela sempre foi: nós com nossas reservas intocadas sem gente, os estrangeiros com suas mesas de madeira maciça, carne em abundância e soja barata, os latifundiários com grandes pastos, políticos com férias em Angra e os trabalhadores com seus empregos efêmeros. Do que nos interessa a vida de um grupo de índios, empurrado de um lado para outro, cumprindo pena por ter subvertido a ordem nacional?
enviada por Sakamoto





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Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae).


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