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20/10/2008 18:32 Um PC 486, um spam e o maior e-mail do mundo Este post não tem relação nenhuma com os temas deste blog. Mas como eu estava refletindo sobre a velocidade com a qual o mundo mudou, achei pertinente. No início da década de 90, chegou à casa dos meus pais um PC-AT 486. Na época, era uma sensação não havia nada mais rápido. Meu pai atua com engenharia, então aquilo era visto como um instrumento de trabalho necessário e não um brinquedo - como ressaltava a minha mãe. Ou seja, havia até certa reverência à máquina branca, que desbancou a televisão e um vaso de estimação e ocupou o lugar de objeto mais importante da sala. Os programas vinham em vários disquetes de 5¼ ou 3½ e levavam horas para serem instalados. Mas quem se importava? O ruído da impressora matricial mastigando a fita - que fazia o cachorro latir e só podia ser usada durante o dia, pois à noite acordava os vizinhos - era o estado da arte da tecnologia. E, é claro, havia o acesso à rede. O computador da casa tinha uma placa de modem discado de 2400 bps de velocidade, com a qual eu acessava BBSs e trocava arquivos com amigos. Um dia especial foi quando criei meu primeiro e-mail. Hoje, olhando daqui, me sinto um completo idiota. Com medo de não ser achado ou ser confundido com outra pessoa, criei o endereço leonardo.moretti.sakamoto@interconnect.com.br. Tirando os informes do provedor, nunca recebi uma mensagem sequer. Feito esse preâmbulo, chego à história que motivou o post. Na época, um amigo me ligou para fazer uma consulta: - Cara, você que sabe dessas coisas de tecnologia [ter um computador em casa dava, imediatamente, um título honoris causa em tecnologia - mesmo que a pessoa não soubesse o que era um HD. E se eu tivesse ganhado um poodle, seria especialista em tosa?], me explica como é que eu faço para mandar um e-mail para todo mundo. - Todo mundo quem, amigos, família? - Não, não sacaneia. Você entendeu: todo mundo. - Todo mundo quem? - Todo mundo, o mundo inteiro. Todos. Sabe a loja do meu pai? Então, ele pediu para eu mandar um e-mail para todo mundo que tem e-mail fazendo uma propaganda [assim nasceu o spam...] - Sei lá se dá. Coloca all no destinatário, de repente chega para quem você tem registrado. - Sabe de uma coisa, você é o maior picareta, não entende de nada mesmo. Vou deixar em branco. Acho que deve dar. Anos depois, meu pai vendeu o 486 e comprou outro, mais novo. Lembro que minha mãe ficou possessa porque iam pagar apenas uma parte ínfima do valor que havíamos pago, em suadas e longas prestações. Não adiantou falar que a tecnologia avança, barateira, Lei de Moore, essas coisas. Se o carro podia ser vendido por mais da metade do preço de compra, por que o micro não? Acabei de fazer um download de um arquivo de 50 Mb. Demorou menos tempo que escrever este post. Ou seja, a tecnologia me fez ganhar muito tempo nas duas últimas décadas. Tempo que alguém comeu, porque eu não vi. enviada por Sakamoto 18/10/2008 23:12 Milícias privadas atacam acampamento no Pará Segue nota divulgada hoje pela Comissão Pastoral da Terra e pela Federação dos Trabalhadores da Agricultura no Pará sobre ataque que um acampamento de trabalhadores sem-terra teria sofrido no município de Redenção, Sul do Estado. A criação de milícias privadas, que ocupam o lugar do poder público e fazem papel de polícia e justiça, tem sido cada vez mais freqüente na região, o que tem preocupado movimentos sociais e defensores dos direitos humanos. "No dia 16 de outubro ultimo, cerca de 08 pistoleiros atacaram o Acampamento Sardinha, organizado na Fazenda Vaca Branca, conhecida também por Fazenda Santa Maria, no Município de Redenção Sul do Pará. Eles estavam encapuzados e fortemente armados, com pistolas, revolveres e espingardas, dispararam vários tiros, humilharam e ameaçaram as pessoas de morte, incendiaram os barracos com tudo o que tinham dentro, inclusive mantimentos e expulsaram as 27 famílias ali presentes. Apavoradas, as famílias se refugiaram na cidade de Redenção, na casa de familiares e amigos. O crime foi comunicado à DECA (Delegacia de Conflitos Agrários), que lamentavelmente limitou-se a registrá-lo como ameaça, quando está configurado o porte ilegal de arma, disparos de arma de fogo, incêndio e formação de quadrilha ou bando. É escandalosa a forma com que a policia do Pará continua a tratar os crimes praticados pelas milícias privadas contra os trabalhadores rurais sem terra. Agindo assim o Delegado da DECA, Newton Brabo já decretou a impunidade dos pistoleiros. Crimes dessa natureza são feitos sempre por encomenda. Neste caso, a fazendeira chama-se Maria de Fátima Gomes Ferreira Marques, que já obteve na justiça uma decisão liminar de manutenção de posse, desde o dia 17.09.07. Pergunta-se: será que o Delegado Newton Brabo vai cumprir o seu dever legal de indiciar a proprietária como mandante do crime? É com a certeza da impunidade que os fazendeiros do Pará preferem lançar mão das milícias privadas a optar pelo regular cumprimento de ordem judicial. Ressalte-se que os trabalhadores rurais já vinham sofrendo ameaças constantes desde o inicio de setembro de 2008 e já haviam comunicado o fato à DECA. O Acampamento é formado por aproximadamente 70 famílias que há mais de um ano ocupam a área, para pressionar o INCRA a realizar vistoria do imóvel a fim de verificar o cumprimento de sua função social. Redenção-PA, 18 de outubro de 2008" enviada por Sakamoto 18/10/2008 09:21 Participe do abaixo-assinado pela punição a escravagistas Nesta sexta (17), dezenas de instituições e organizações da sociedade civil, empresariais, da justiça, do ministério público e do governo se juntaram em uma mobilização nacional pela coleta de assinaturas para a aprovação da PEC do Trabalho Escravo. Essa proposta de emenda constitucional prevê o confisco de terras onde trabalho escravo for encontrado. Aos 120 anos da Lei Áurea e aos 60 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, brasileiros continuam sendo traficados para trabalho escravo: 6 mil deles foram libertados em 2007 de um total de 31 mil encontrados nessa situação desde 1995 pelo governo federal. Nesse período, a Comissão Pastoral da Terra registrou denúncias envolvendo mais de 50 mil trabalhadores "aprisionados por promessas", obrigados a trabalhar em fazendas e carvoarias, em condições desumanas e impedidos de romper a relação com o empregador. Sua maior concentração está nas regiões de expansão agropecuária da Amazônia (coincidindo com o Arco do Desflorestamento) e do Cerrado. O trabalho escravo é com freqüência associado a desmatamento ilegal, na formação de pastos ou instalação de lavouras. Contudo, há também casos no Sul e no Sudeste do país. Em 2007, metade dos trabalhadores foi resgatada na Região Centro-Oeste e em canaviais. Empregadores adeptos desse sistema são, em sua maioria, grandes proprietários, produzindo com tecnologia de ponta lá mesmo onde exploram essa "gente descartável". Arcaico e moderno convivem em busca do lucro fácil e abastecem o comércio nacional e internacional. É teoricamente fácil punir quem ameaça a liderança do Brasil no mercado mundial de commodities agrícolas e envergonha cada brasileiro: indenizações milionárias são aplicadas contra escravistas modernos; signatários do Pacto Nacional das empresas pela erradicação do trabalho escravo têm cortado negócios com eles. Porém muitos persistem e até reincidem. Nenhum deles foi para a cadeia. Nenhum perdeu sua propriedade. Os criminosos permanecem livres, ricos proprietários, e até elogiados pelo tributo que trazem aos cofres nacionais. Um meio simples de acabar com isso está nas mãos do Congresso. Chama-se PEC 438/2001 e acrescenta a questão do trabalho escravo ao artigo da Constituição que prevê a expropriação das terras com plantio de psicotrópicos. As propriedades confiscadas seriam destinadas à reforma agrária, uma das medidas mais urgentes para gerar alternativas decentes de trabalho no campo. No dia 12 de março, em um evento com mais de mil pessoas em Brasília, cobrou-se da Câmara a aprovação da PEC, que já foi votada no Senado e, em primeiro turno, pelos deputados. Continua ali, parada, sob resistência da bancada ruralista. Dá para tolerar que nossos representantes continuem sentados em cima de uma questão como essa? Se você acha que não, clique aqui e endosse o abaixo-assinado. enviada por Sakamoto 16/10/2008 19:14 Direitos quilombolas e trabalho escravo no Vladimir Herzog Duas belas reportagens para internet vão ser agraciadas com o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos este ano. André Deak, Rodrigo Savazoni, Spensy Pimentel e equipe, pela Agência Brasil, ganharam com "Nação Palmares". E Lucio Lambranho, do Congresso em Foco, receberá a menção honrosa por "Vida e Morte Correntina". Já tinha indicado as duas reportagens neste blog e faço novamente agora com muito prazer. Porque jornalismo bom infelizmente não é lido, reproduzido e copiado com a freqüência necessária. Para assistir ao documentário interativo "Nação Palmares", sobre a luta da população quilombola pelo reconhecimento de seus direitos no Brasil, clique aqui. Para ler a série de reportagens "Vida e Morte Correntina" sobre o drama de 79 trabalhadores rurais do Piauí, submetidos a condições análogas de escravo e vítimas de um grave acidente rodoviário no interior da Bahia, clique aqui. enviada por Sakamoto 15/10/2008 10:16 O que podemos fazer para salvar a Amazônia? A Repórter Brasil e a Papel Social lançaram ontem no seminário "Conexões Sustentáveis São Paulo - Amazônia" o estudo "Quem se beneficia com a destruição da floresta". O objetivo é aumentar o nível de informação sobre as relações econômicas para contribuir com uma mudança no modelo de desenvolvimento predatório que está consumindo a Amazônia e sua gente. Grilagem de terras, corte ilegal de madeira, avanço de pastagens, monocultura agrícola e mineração predatória são os principais combustíveis da devastação da Amazônia. Em nome de um suposto progresso econômico e da geração de empregos, a floresta vem abaixo, quase sempre sem levar em conta as questões ambientais e a responsabilidade social. O manejo sustentável é uma exceção e o exemplo clássico é a madeira: ao menos 80% das árvores são derrubadas de forma predatória. Povos indígenas, comunidades tradicionais e pequenos agricultores estão no topo da lista dos que saem perdendo. No entanto, essa relação é ainda mais longa, uma vez que não só o Brasil, mas o planeta inteiro é afetado pela exploração inconseqüente dos recursos naturais, já que a floresta em pé é decisiva para a manutenção da qualidade de vida de milhões de pessoas. Entre outras funções vitais, ela regula o regime de chuvas e a temperatura média de uma extensa área do globo. Se tanta gente sai perdendo, quem ganha com a destruição da Amazônia? Essa foi a pergunta que originou este estudo e motivou esta pesquisa, que identificou exemplos de cadeias de responsabilidades ligadas ao problema. A destruição da Amazônia tem uma forte relação com a economia de mercado. Na ponta da cadeia produtiva, diversos atores se beneficiam. Madeireiras, frigoríficos e agroindústrias estão diretamente ligadas ao problema, pois compram de fornecedores que estão na linha de frente do desmatamento. Posteriormente, distribuem produtos industrializados para uma ampla rede de compradores. O resultado final chega à casa dos paulistanos. Supermercados vendem carne produzida por frigoríficos que, por sua vez, compraram gado de fazendeiros que cometeram crimes ambientais e trabalhistas. Prédios são construídos com madeira oriunda de produtores que já foram flagrados destruindo a floresta. Multinacionais que vendem produtos de madeira certificada, e que se dizem preocupadas com o aquecimento global, podem adquirir matéria-prima de uma madeireira multada nove vezes nos últimos quatro anos por desrespeitar a legislação ambiental? Supermercados podem comercializar carne comprada de um frigorífico que abate gado oriundo de produtores flagrados por desmatamento ilícito e trabalho escravo? Restaurantes podem vender hambúrgueres de produtores do bioma amazônico quando seus documentos de responsabilidade social avisam o consumidor de que isso não acontece? O poder público pode realizar obras de infra-estrutura com madeira comprada de uma empresa que se relaciona com madeireiras que atuam em áreas embargadas e são acusadas de crimes ambientais? Tais perguntas precisam de respostas imediatas. A responsabilidade social empresarial deve ser exercida em sua plenitude e não apenas em ações de marketing social ou de filantropia. O consumidor precisa urgentemente ser educado e se educar para não comprar, sob nenhuma condição, produtos que tenham crimes ambientais e trabalhistas em sua cadeia de produção. O governo precisa tornar eficiente sua capacidade de fiscalização, educação e repressão às ações criminosas. O pode judiciário deve se agilizar e fazer o que for necessário para evitar que um processo por destruição ambiental ou por trabalho escravo se arraste por anos. Os agentes financiadores, públicos e privados, não podem mais injetar recursos em processos predatórios, seja através de compras públicas ou de financiamento à produção. O ato da compra é um ato político poderoso. Através dele damos um voto de confiança para a forma pela qual determinada mercadoria é produzida. Um exercício democrático que não é exercido apenas a cada quatro anos, mas no nosso dia-a-dia. E que pode ditar o destino da maior floresta tropical do mundo e de sua gente. Ou seja, também cabe a cada um de nós, paulistanos, decidir o futuro da Amazônia. enviada por Sakamoto 13/10/2008 20:28 Roger Agnelli, da Vale, quer acabar com a pobreza Ontem o presidente da Vale (do Rio Doce), Roger Agnelli, escreveu um artigo no jornal Folha de S. Paulo sob o título A melhor forma de enfrentar o desmatamento é investir em educação, em saúde e na geração de oportunidades. Aproveitou as informações divulgadas recentemente pelo Ibama, que mostravam que os assentamentos do Incra estão na frente na lista dos maiores desmatadores, para cutucar um dos maiores inimigos da empresa: os trabalhadores rurais sem-terra. Não vou entrar no mérito desse cálculo (será que se juntássemos todas as terras de algumas famílias de sojicultores e pecuaristas do Norte do Mato Grosso, como o Ibama fez ao juntar os lotes de assentados, o número não seria absurdamente maior?...) Prefiro pinçar a tentativa de Agnelli de dobrar a realidade para se encaixar ao seu argumento. Escreveu ele: Não devemos perder tempo com discussões sobre a importância da reforma agrária. É necessário levarmos novos processos para os assentamentos e ajudar a banir de lá a pobreza, que, desumana, flagela homens, mulheres e crianças. É hora de promover a inclusão social dos assentados, porque, no fim das contas, o maior inimigo do ambiente é a miséria. Bonito. Mas o que ele não diz é que a imensa maioria das terras na Amazônia está na mão de grandes proprietários, que produzem gado, soja, algodão, milho para exportação e para o mercado interno. E, são eles, na quantidade total de hectares, que mais desmatam. O que ele também não diz é que os posseiros da região ainda são expulsos de suas terras para dar lugar aos latifúndios. Ou que a própria Vale comprou ilegalmente propriedades de assentados para garantir sua produção mineral. Ou seja, quando ele diz banir de lá a pobreza ele quer dizer isso literalmente, afastando os "impedimentos" para exploração do minério. O maior inimigo do meio ambiente é o desenvolvimento predatório praticado pelo grande capital, que leva a riqueza a alguns e a miséria a muitos. A miséria, portanto, não é causa, mas conseqüência do desrespeito às terras e suas gentes. Em outros tempos, chamaríamos isso de acumulação primitiva do capital: aquela pilhagem de recursos naturais e de força de trabalho que acontece quando empreendimentos estão sendo implantados ou em expansão. Como na fronteira agrícola da Amazônia e do Cerrado brasileiros. Porém, hoje, chamamos isso de aumento da capacidade produtiva. Não vou me adentrar nessa seara. Quem segue este blog há um tempo, sabe que já escrevi sobre isso antes. Mas é que as pessoas estão, cada vez mais, perdendo o pudor. enviada por Sakamoto 12/10/2008 21:05 Aqui o direito à propriedade está acima do direito à vida Da mesma forma que o combate à escravidão contemporânea tem sido ponta-de-lança para a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores rurais (ele pressionou pela ampliação da estrutura de inspeção do trabalho e de punição de infratores, o que é util a toda a sociedade, por exemplo) a defesa dos empresários que utilizam esse expediente tem servido de bandeira para a manutenção do status quo no campo. Um caso emblemático é o da proposta de emenda constitucional número 438/2001 que prevê o confisco de terras em que trabalho escravo contemporâneo for encontrado. Ela pretende ser um acréscimo ao artigo da Constituição que já contempla o confisco de áreas em que são encontradas lavouras de psicotrópicos como maconha. O projeto está tramitando há anos no Congresso Nacional, mas não há previsão para que seja aprovado devido à pressão de representantes do setor agropecuário no Congresso, a chamada "bancada ruralista". Anteriormente à votação no plenário, ao passar pelas comissões na Câmara, a proposta recebeu severos ataques, tendo à frente os então deputados Ronaldo Caiado (DEM-GO) e Kátia Abreu (DEM-TO). Por mais que a proporção de empregadores que utilizam trabalho escravo contemporâneo seja pequena diante do universo de produtores rurais, esses representantes políticos são contrários à proposta. Pois, para eles, o que está em jogo é a propriedade da terra, considerada inviolável por parte dos seus representados - os proprietários rurais. A sua manutenção e concentração é condição fundamental para possibilitar o negócio agropecuário, pois, além de ser capital, é o locus onde se produz riqueza através do trabalho. A "PEC do Trabalho Escravo" é, pelo ponto de vista de membros da classe ruralista, um risco à sua própria existência e, portanto, lutar contra a sua aprovação representa mais do que manter a exploração de formas não-contratuais de trabalho. Só assim, no campo simbólico, é que se pode compreender a importância do trâmite dessa proposta por ambos os lados da questão. Pois sabemos que a aplicação da lei - como todas aquelas que dizem respeito aos direitos de trabalhadores - encontraria várias dificuldades nos tribunais. A referência para essa previsão é o que já acontece com o confisco de terras em que forem encontradas plantações de psicotrópicos. A análise do comportamento das entidades de classe aponta para a mesma direção. Apesar de a CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária) repudiar oficialmente a utilização desse tipo de mão-de-obra, as suas intervenções públicas nesse campo têm se dado no sentido de deslegitimar situações encontradas pela fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego nas propriedades rurais. Ou seja, a instituição, que faz parte da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, não nega a necessidade de que a escravidão contemporânea seja erradicada, defendendo isso inclusive em suas publicações, mas afirma que os agricultores e pecuaristas não utilizam esse expediente. Um triste, mas compreensível, paradoxo. enviada por Sakamoto 10/10/2008 18:04 Escravidão e agronegócio são tema de debate em Brasília Brasília - Foi realizado, na tarde desta terça em Brasília, o seminário Diálogo Institucional sobre Estratégias de Combate ao Trabalho Escravo, organizado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH) da Presidência da República. O objetivo do encontro - que reuniu as entidades da Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo, e ministros das áreas do Trabalho (Carlos Lupi) e Direitos Humanos (Paulo Vannuchi) e o secretário-executivo da Agricultura (Silas Brasileiro), além da diretora da Organização Internacional do Trabalho no Brasil, Laís Abramo foi de ampliar o diálogo sobre o combate ao trabalho escravo com o setor agropecuário. Nele estão localizados a maior parte das mais de 31 mil libertações de escravos realizadas no Brasil. Como membro do Comitê Gestor do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, fui convidado a apresentar como esse crime está inserido na economia brasileira e como as empresas vêm combatendo o problema. O Pacto Nacional hoje conta com cerca de 160 empresas e associações comerciais (cerca de 20% do PIB) que se comprometeram a atuar em suas cadeias produtivas. É claro que nem todas fazem a lição de casa como deveriam. Outras empresas, mesmo alertadas sobre problemas em suas cadeias produtivas, negam a se mexer. No Brasil, por exemplo, um ramo que está devendo ação é o do setor automobilístico, que não tem como comprovar que não usa mercadorias fabricadas com trabalho escravo. Mas há fortes avanços, em cadeias que vão do etanol até o aço, do algodão ao babaçu. Até a criação do Pacto, o sistema de combate ao trabalho escravo não havia envolvido o setor empresarial, que tornou possível o combate à escravidão através do seu viés comercial. Com isso, a sociedade pode atingir quem lucra restringindo a liberdade de outros. Estiveram presentes do lado empresarial representantes da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), do Instituto Carvão Cidadão, ligado às siderúrgicas da região dos Carajás, e da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária. A conversa foi importante pela presença de um alto representante do Ministério da Agricultura. Isso pode significar um envolvimento maior desse setor do poder público nesse tipo de articulação. O que é sempre bom, pois há entidades de classe ligadas ao agronegócio que refutam a existência de trabalho escravo, apesar das provas ao contrário. Foi sentida a ausência de entidades relevantes, como a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), que congrega os maiores frigoríficos do país. Ela participa de outros fóruns de responsabilidade social empresarial, mas não veio nem deu sinal de vida no encontro desta terça. O que é uma pena, uma vez que a pecuária ainda é o setor que utiliza trabalho escravo no país e é o principal vetor de desmatamento da floresta Amazônica. enviada por Sakamoto 10/10/2008 09:41 Estupro e meias-desculpas Quando li o texto publicado na revista Trip, em que um estuprador pedia desculpas à sua vítima, pensei que era uma brincadeira de mau-gosto ou mesmo um relato ficcional veiculado para testar como seriam as reações humanas - ou seja, um bizarro experimento antropológico. Contudo, creio que a revista na tentativa de "chocar a sociedade" tenha simplesmente feito uma burrada fenomenal, passível inclusive que questionamento judicial. Para explicar melhor o caso, puxei, abaixo, o post do blog Viva Mulher sobre o texto da Trip. Se quiserem ler o texto, o link está no final, mas adianto que é de causar espanto. A pergunta é: quanto tempo a revista vai demorar para criar uma desculpa do tipo "era brincadeira?" ante à avalanche de reclamações. Espero que para você a memória daquela tarde não seja tão ruim e que você hoje possa rir do que aconteceu. A frase é de homem adulto. Se dirige a uma mulher, que talvez nem esteja viva. Há mais de 30 anos, quando ainda era um adolescente, ele obrigou-a fazer sexo. O mês de outubro foi o escolhido para pedir desculpas à vítima e o veículo, uma revista de circulação nacional. O narrador em primeira pessoa é bastante famoso, trata-se de um cineasta. Antes de tudo, vamos lembrar que estupro é crime. No Brasil e em qualquer outro lugar. É um ato de violência absurdo que deve ser denunciado e condenado, para que nunca mais se repita. O autor do dito artigo perdeu algumas chances na vida. A primeira e que deveria ser a única foi a de não ter forçado a empregada doméstica de seus pais a manter relações sexuais com ele. A segunda, a de ter assumido sua ação, vergonhosa, e todos os seus ônus. Mas não. Escolheu expor a situação de forma tardia e pública, sem qualquer reparação concreta. Talvez uma maneira de limpar a própria consciência. Afinal, é só ela que atrapalha o sono quando encostamos a cabeça no travesseiro à noite. O resto a mulher, o crime etc não importa. Não foi bom, Luisa. Na hora do vamos ver fiquei envergonhado e não rolou legal. Por que será, caro narrador? E continua: Lembro de poucos detalhes. Você não queria, mas por força da nossa insistência acabou cedendo. Sinto ódio do Brasil quando penso que você provavelmente tivesse medo de perder o emprego. Ahá, tudo explicado! De fato, a culpa é do Brasil. Esse país tão sórdido, tão injusto. Deve ser por isso que o tal cineasta não mora aqui. E que todos os comentários postados pelos leitores dessa matéria sejam em repúdio a ele. Caso você queria ler a carta de Henrique Goldman, clique aqui. PS: No final do texto, a revista explica que o cineasta "tornou-se mais jeitosinho com as mulheres ao longo dos anos". enviada por Sakamoto 05/10/2008 23:32 Errar é humano. Ainda mais se você for jornalista É duro trabalhar com informação. Mesmo carregado da melhor das intenções, a gente escorrega. Que atire a primeira pedra quem nunca deu barriga, expressão usada na profissão para as comidas de bola. Mas vale lembrar que o erro jornalístico não é menos grave que o erro médico. Ele também mata e, além disso, destrói reputações (os donos da Escola Base que o digam), gera guerras, derruba governos. Por isso, temos que procurar diminuir a quantidade de erros. E sabendo que eles sempre vão existir, torna-se fundamental o veículo ter uma política para reconhecê-los abertamente e corrigi-los assim que possível. A Folha de S.Paulo fez um erro grave nesta semana e tentou corrigi-lo. Segue abaixo parte do texto do jornal que reconhece a falha. Ele devia ser chamada de capa, pois a matéria original que trouxe o problema também foi, contudo ficou restrito à página 18. Infelizmente, o texto na versão digital do jornal estava incompleto e tive que preencher as lacunas usando a versão impressa (em itálico). Por exemplo, uma frase que foi cortada na versão para internet foi A reportagem voltou a ouvir a fita ontem, e, apesar da fala rápida de Correa dificultar a audição do trecho, constatou que esse não de fato não foi dito por ele. O "não" em questão é o cerne do problema. Seria melhor que o jornal tivesse assumido o erro mais claramente do que culpar a dicção do presidente equatoriano. Bem, torçamos para que os ânimos exaltados entre os dois países não piorem por causa disso. Por fim, para que possamos rir da nossa própria desgraça, sugiro a antologia de erros da Folha de S.Paulo disponível na Folha Online. Dentre as antológicas, está a célebre constatação de que Jesus não foi enforcado e sim crucificado Uribe reage a Corre e cancela ida a Equador Erro da Folha em transcrição de entrevista de Rafael Correa é apontado por governo equatoriano como pivô do novo abalo bilateral O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, anunciou que não irá à reunião da Comunidade Andina (CAN), no dia 14, em Guayaquil, no Equador, em reação a declarações "ofensivas" feitas pelo presidente equatoriano, Rafael Correa, em entrevista concedida à Folha publicada na última quinta-feira. Em reação, a Chancelaria do Equador apontou ontem à tarde um erro na transcrição da entrevista como pivô da crise bilateral que foi confirmado pela Folha. Na entrevista,quando questionado se considerava superada a crise com a Colômbia, iniciada com o ataque colombiano a uma base das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no Equador, em 1º de março, Rafael Correa disse, segundo a transcrição de seus assessores: "(...) houve uma clara agressão deliberada, desleal ao território equatoriano não por parte de um país que consideramos irmão, mas de um governo que considerávamos amigo". No mesmo trecho publicado pela Folha, foi incluído um "não" que mudou o sentido da frase: "(...) há uma clara agressão deliberada e desleal ao território equatoriano por parte de um país que consideramos irmão, porém tem um governo que não consideramos amigo. A reportagem voltou a ouvir a fota ontem, e, apesar da fala rápida de Correa dificultar a audição do trecho, constatou que esse não de fato não foi dito por ele. Na nota, a Chancelaria equatoriana diz que comunicou a reclamação aos meios de comunicação responsáveis, mas a Folha não recebeu nenhum pedido de retificação até o fechamento desta edição. enviada por Sakamoto Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?) |
Leonardo Sakamoto é jornalista e Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu a guerra pela independência em Timor Leste e a guerra civil angolana. Foi professor do curso de jornalismo da ECA-USP e trabalhou em vários veículos de comunicação, tendo recebido prêmios na área de jornalismo e direitos humanos, como o Vladimir Herzog e o Prêmio Combate ao Trabalho Escravo. Empreendedor social Ashoka, é coordenador da ONG Repórter Brasil e seu representante na Comissão Nacional para a Erradicação do Trabalho Escravo (Conatrae). ![]()
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